JMpoesias


18/10/2012


Coisas lá de casa

        (José Maria Alves Nunes)

 

Na cozinha, em cima do fogão à lenha construido junto ao peitoril que dava vista para o terreiro interno, ficava o mini-tamborete onde meu pai se sentava todas as manhãs, bem cedinho, enquanto minha mãe punha água pra ferver na chocolateira que, é bom esclarecer, nunca servia para fazer chocolate, era sempre café. Cresci sem saber o porquê chocolateira. Mas, voltando ao assunto, depois de coar o café, ela, minha mãe, servia a ele, meu pai, em uma caneca esmaltada, verde, já toda batocada pelo tempo, e pelas quedas que minhas irmãs davam nela quando iam à fonte lavar os terens.

O cheiro de café se espalhava por todos os poucos cômodos da casa levado pela leve brisa do amanhecer, e embriagava a todos nós, aguçando a nossa vontade de tomar um gole. Mas aos meninos quando não um chá de folha de laranjeira, era destinada apenas a garapa – aquela água com rapadura e uma pitada de café, aquela coisa insossa, sem graça. Nessas horas eu ansiava ficar adulto para poder tomar aquele café forte e saboroso que só meu pai e minha mãe tinham direito.

Depois, meu pai descia do fogão, apanhava o embornal, amarrava o facão embainhado à cintura, punha sobre a cabeça o chapéu de palha, pegava a enxada, ou a foice, ou o machado, o que fosse apropriado para a atividade do dia, enfiava a cabaça de pescoço cheia d’água no cabo da ferramenta, jogava no ombro direito, e saía. Voltava sempre ao meio dia para o almoço, e a cesta.

Deitava-se cansado sobre um velho e imponente banco que ficava na sala sem paredes laterais, punha sob a cabeça um cepo como travesseiro, e chamava um de nós, filhos, para lhe fazer cafuné.

Na ansiedade de criança aqueles minutos de cafuné pareciam intermináveis. Mas logo meu pai ressonava, e então o escolhido saía pé ante pé para a vadiagem.

Quando nos juntávamos era sempre festa. Algazarra. Muitas brincadeiras – peão, gangorras, trapézios -. Fazímos coisas que até Deus duvidava. Certa feita, por exemplo, uma de minhas irmãs propôs a mim irmos “roubar” melancia na roça do vizinho. Claro que eu topei de pronto. E infelizmente fui pego em flagrante e fiquei em situação muito vexatória. Mas isso é papo para outra ocasião.

A nossa vida se resumia às coisas que nos rodeava entre o alvorecer e o anoitecer. Em nada diferente de outras famílias sertanejas. E éramos, embora a escassez, muito felizes. Enquanto meu pai lavourava na capina da roça, nós realizávamos tarefas mais simples, como juntar em coivaras os gravetos mais resistentes à queimada feita antes do plantio, regar algumas mudas de árvores frutíferas, ou tanger os assuns que insistiam em desenterrar as sementes de arroz semeadas no roçado. À minha mãe cabia as de casa; água nos potes, pilar grãos, varrer os terreiros, cozinhar, enfim, os afazeres comuns às donas de casa.

À noite todos sentavam-se ou deitavam-se nas esteiras de palha postas no terreiro, e vendo a lua, e admirando estrelas, alegres, e atentos ouvíamos as muitas estórias que em certas ocasiões eram contadas por minha vó quando nos visitava. As estórias eram contos de fadas, n’outras vezes aquelas assombrosas. Quando eram dessas a gente ia se achegando pra perto de minha mãe, agarrando-lhe a saia.  E assim vimos a adolescência chegar.

Escrito por Zé às 17h20
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