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Da relevância do que nos parece irrelevante
Nas tardes quentes e de pouco vento da velha Tiradentes Sebastiana buscava amenizar os efeitos da menopausa apoiando os cotovelos na janela de um velho casarão da Rua Castro Alves, herança que lhes deixaram os avós. Apesar do pouco movimento na rua estreita e íngreme, por ali passava sempre alguém menos apressado disposto a lhe conceder um dedo de prosa. Isso a distraía, e ela acabava esquecendo por alguns instantes do calor insuportável que lhe consumia as entranhas desde que se livrara do incômodo ao qual estão fadadas todos os meses as mulheres. O incômodo que para algumas é bônus e para outras um imensurável ônus. Para Sebastiana, certamente, a classificação do incômodo caia na segunda hipótese, haja vista não ter contraído núpcias e, conseqüentemente, não ter concebido. Haviam alguns inconvenientes no ato de acocorar-se à janela, dentre eles, homens que, intrépidos, arriscavam lhe dizer um gracejo e exageravam, outros que lhe declamavam poemas mais picantes, e ainda outros, mais atrevidos, que ousavam lhe oferecer rosas vermelhas. Mas isso tudo dependia de como estava seu humor. A depender, as rosas despertavam-lhe agradáveis sensações. Nestes dias, ela as recebia e até ensaiava um sorriso em agradecimento. Entretanto, comumente, Sebastiana desdenhava dos homens. Os achava patéticos, sem noções do ridículo. Fazia beicinho e os ignorava. Mas acostumou-se àquela rotina de tal modo que jamais parou para pensar o quanto ela lhe era aprazível. Certa feita, num desses dias em que o sol parece tudo querer derreter,como de costume, Sebastiana emoldurou-se da janela, e ficou à espera. Inquieta, insistentemente esticava o pescoço além da moldura a espiar a presença de alguém. Estranhou. Nenhuma alma viva passou naquele dia, nem nos que se sucederam. Sebastiana prostrou-se com profunda depressão. Recolheu-se, e nunca mais mostrou-se à janela. Escrito por Zé às 14h02
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Ideais e conquistas
Ah meu camarada; se soubesses... eu já ergui bandeiras, já pintei o rosto, defendi ideais ao som de um poeta conclamando o povo a sair dos quintais. Caminhando e cantando, como sugerido, já derrubei muros que cegavam olhos para os umbrais. Assoviando as canções do novo mundo enfrentei a fúria e a insensatez dos poderosos, dos soldados armados; gritei palavras de ordem contra a opressão; pensamento livre, mesmo trancado entre os muros da prisão. Ah meu camarada, se soubesses... quantos gritos de horror eu escutei, quantos gemidos, quantos vi tombarem em silêncio heróico resistindo às penas com nervos contraídos. E de que valeu a luta, não fosse me livrar da culpa que não pesará impiedosa sobre minhas costas? No entanto, eu queria mais; muito mais que o simples sentimento de dever cumprido e a consciência tranqüila Queria ver o verde da esperança brilhando no olhar dos desvalidos o sorriso alegre no rosto da criança, um povo livre em seu pensar. Apenas isso eu quis quando gritei abaixo a ditadura quando engrossei o coro das “Diretas Já” quando elegi o meu representante quando pintei o rosto e derrubei um presidente; Apenas isso eu quis quando na noite escura protestei nos muros do país. Escrito por Zé às 12h58
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