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Com a cuia em Cuiabá
Costumam dizer por aí que Cuiabá é tão quente que as galinhas daqui comem milho e cagam pipoca. De fato, a capital matogrossense é reconhecidamente uma das cidades mais quentes do País, mas daí também já é exagero usar palavra tão feia para dizer que o calor aqui é algo que incomoda quem vem de fora.
Acredito que a alta temperatura na cidade decorra do fato dela – caramba! - estar localizada entre chapadões (chapada dos guimarães), como se estivesse cercada e impossibilitada de receber ventos, por isso a sensação térmica é maior. Além disso, ela se localiza exatamente no centro geodésico da América do Sul.
O que vem a ser isso? Ah. vai pesquisar no Google.
Cheguei aqui às dezessete horas de um dia abafado de outubro. Após dois meses sem chover na cidade, no dia seguinte ao da minha chegada, às cinco da manhã desaguou um toró daqueles de respeito.
Uma hora a menos do horário de Brasília ajudou-me bastante, considerando que teoricamente teria uma hora a mais para dormir. E tem mais, ao menos durante esse tempo que ficarei por aqui, tomarei de volta a hora que o horário de verão me roubou. Bem, mas isso são apenas conjecturas. Voltemos ao assunto.
A chuva sobre o asfalto quente e castigado da Capital do Mato Grosso – aqui tem muito cimento – provocou imediata reação do solo. Subiu um vapor que, meia hora exposto a ele, seria tempo suficiente para cozinhar os miolos do cara mais cabeça dura que você conhece. Pense em um cara cabeça dura. Aquele seu amigo que sempre resiste em aceitar qualquer coisa. Pois é, meia hora seria capaz de cozinhar os miolos dele.
Apesar das águas do rio Cuiabá limitar o município a oeste, não é dado aos cuiabanos o direito de se refrescar e refestelar às dez horas da manhã de qualquer dia feira da semana em suas águas. A menos que esse seja um vagabundo qualquer; coisa rara nesta cidade de gente trabalhadora. Então, surgiu a idéia de perguntar algumas pessoas da cidade a quais artimanhas recorrem para amenizar o efeito de tanto calor.
A primeira tentativa de entrevista foi feita com um ancião que encontrei no cruzamento de duas ruas, cujos nomes agora me fugiram, no centro da cidade. Estava ele lá, fazendo pausa, encostado a um poste fumando, bem ao sol de meio dia, quando o abordei.
Além do aspecto folclórico percebi logo tratar-se de um ladino, tamanha a facilidade de prender a atenção das pessoas manejando tochas como se estivesse no picadeiro de um circo, em troca de algumas moedas que tilintavam numa caneca que ele corria ao final de sua performance.
Eu estava ali parado, na espreiita, e quando ele fez uma pausa, corri a saber que resposta ele tinha para essa minha indagação. Afinal, além de viver exposto ao escaldante calor de Cuiabá, ele ainda trabalhava com aquelas tochas.
Para não entrar de sola, primeiro perguntei o que de interessante para fazer na cidade.
Não prestei muita atenção na resposta eu estava mesmo interessado era na questão do calor e quando ele me respondeu fiquei intrigado. Disse-me ele que, para amenizar o calor de Cuiabá os cuiabanos traziam consigo; cuias. Eu, Incontinenti, retruquei. - Uai, você deve estar louco. Cuia não é um objeto usual entre os cuiabanos. Que eu saiba quem gosta mesmo de cuia é o povo lá dos pampas. Então ele me disse: - Não vês? Repare nas mãos, penduradas à tira-colos, equilibrada sobre aas cabeças, acondicionadas em capangas... Realmente eu não havia prestado atenção. Mas, todos os homens, e todas as mulheres, e todas as crianças, os negros, os brancos, os pobres, os ricos; invariavelmente traziam consigo tais recipientes. Vendo minha cara de espanto ele acudiu dizendo: - Todos trazem água para se refrescar enquanto se locomovem de um lado para outro da cidade. Como eu disse antes, no início dessa prosa, para cumprir minha missão nesta cidade vai ser preciso ficar por aqui uns quinze dias. Assim, para não ser o diferente, corri a comprar minha cuia também. E foi essa a razão do título dessa conversa.
José Maria Alves Nunes Cuiabá, 20 de outubro de 2009
Escrito por Zé às 21h06
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