|
||
|
Da natureza Quando conheci a Senhora Catharina, ainda que trôpegos, eu bem que ensaiei uns passos em sua direção. Entretanto, sabia que não conseguiria lhe falar das coisas estranhas que eu sentia. Com certeza, tropeçaria nas palavras, me engasgaria e não lhe diria patavinas sobre o alvoroço que me causava e me deixava de rosto corado quando a fitava. A senhora Catharina, - cá na minha imaginação infantil – pois jamais ousei lhe perguntar a idade – devia estar ainda na casa dos vinte, mas exibia uma aliança de casamento no anelar da mão esquerda, e sabia como ninguém acender a fogueira dos meus treze anos. Quando ela, a Senhora Catharina, percebeu meus olhares de menino afoito e ávido por descobertas a espiarem sua sensualidade feminina, bem como a revolução que causava em mim seus atributos físicos, passou a me castigar - penso eu - de forma proposital. Hora cruzava as pernas bem torneadas, languidamente; n’outras mordia os lábios me olhando de lado, com um olhar insinuante. O auge do flagelo se dava quando ela usava uma blusa de renda carmim, cujo decote revelava dela a brancura do colo e atraía como imã meus olhos curiosos e meus sentidos. Naqueles instante nada mais eu via ou ouvia. Os seios contidos pelo sutiã, pareciam, por vezes, clamar por liberdade. E eu ali, na resistência, sonhava ser o herói que os libertaria. Não sei se a Senhora Catharina imaginava quais eram meus pensamentos. Se ela tinha idéia do alcance de minha imaginação. Não devia ter. Soubesse ela com que vestes povoava o meu universo, certamente não ficaria imune a um mínimo de alvoroço que fosse. Uma ruborização de rosto, que fosse, deixaria transparecer. Ou será que ela sabia? Não sei. Sei apenas que em algumas ocasiões eram indisfarçáveis minhas reações diante de sua voluptuosidade. A senhora Catharina percebia, e parecia gostar de me ver assim, vexado, com as mãos nos bolsos disfarçando as vontades. As visitas da Senhora Catharina à nossa casa eram esporádicas. Duravam o tempo necessário para mostrar à minha mãe as novidades, e os velhos produtos da Avon, dos quais era revendedora. Quando ela ia embora, eu ficava sonhando com a próxima visita. O Tum Tum Tum no peito, o alvoroço, o afogueamento do rosto, que me causava a Senhora Cathariana duraram até o dia em que por acaso meus olhos encontraram os de Margarida. Hoje, fixei o olhar mais atentamente para o nosso filho enquanto Keila, revendedora de produtos da natura, mostrava para Margarida uma infinidade de "cremes milagreiros", perfumes, desodorantes, e percebi nele o mesmo alvoroço que me causava a brancura do colo da Senhora Catharina. Escrito por Zé às 16h08
[]
[envie esta mensagem]
Prece à esperança
Quando a intransigência impedir com sua força bruta o meu pensar de transformar-se em voz, em gestos e ações e nenhum eco de meu grito vibrar no vão do pensamento
Quando toda semente supostamente arguta lançada à terra se perder infértil nos rincões quando não mais me restar nenhum argumento
Quando improdutiva tornar-se essa labuta e as verdades não causarem incontidas reações não me permita viver esse tormento
Ata-me com laço forte à tua cintura e leva-me contigo à sepultura! Escrito por Zé às 20h01
[]
[envie esta mensagem]
|
||