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Memórias e cores Ingrata esta batalha que enfrento contra o tempo para manter vivas na memória todas as lembranças, pois ele tenta a todo custo apagá-las de maneira vil, fria, cruel. Na guerra, ele usa arsenais modernos e seu aspecto é sempre o mesmo; jovial, viçoso e fagueiro. Não impõe a si próprio sua ação. Mantém sua força. Enquanto eu fui transformado nesse espectro de gente que nem de longe lembra o menino ágil e sagaz de outrora. Ainda assim, em todas as manhãs repinto os quadros guardados na memória. Avivo bem suas cores - de cinza as tristezas, de vermelho os amores. O azul uso para as lembranças mais doces: a liberdade do menino jogando bola, mergulhando no rio, o papagaio no ar, o vôo no trapézio, os bons livros... Há também a presença constante do verde e do lilás, que simbolizaram a esperança e a força que carreguei durante toda a caminhada até aqui. Os tons pretos e acinzentados também estão presentes nas paisagens. Trazem certa melancolia. Ainda assim não os descarto. São necessários, pois me apontam os caminhos que devo evitar. A maioria dos quadros tem como motivo uma velha casa de taipa erguida em meio à caatinga, coberta por um céu de azul intenso, quase anil, e parcas nuvens brancas durante o dia e, à noite, por um breu impressionante que realça o brilho das estrelas nos períodos em que elas não coadjuvam a lua cheia. Existem também pendurados à parede da memória quadros cujos motivos são aglomerados urbanos; arranha-céus, velhos casarões, trilhos, veículos, e muitas antenas de televisão. O céu é coberto de cinza e não permite aparecer a luz do luar. Um olhar mais atento perceberá que o vermelho predomina nessas paisagens. Em contrapartida os tons são mais desgastados. Trata-se de quadros de restauração mais penosa e sendo assim, conseqüentemente, mais cansativas. Mas de igual importância de preservação. Mesmo cônscio da superioridade do tempo, e de estar certo que ele se sobrepõe a todas as coisas; apesar do trabalho árduo na restauração dos quadros já existentes, ainda me restam forças para a pintura de novos quadros. Muitos deles, ainda em tons vermelhos. Não me furto a pintá-los, apesar de sabê-los de difícil restauração. E assim vou misturando cores na tentativa de descobrir outros sabores em meio ao turbilhão de acontecimentos de que se faz a vida. Brasília - DF, verão 2009 Escrito por Zé às 23h26
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