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Minha utopia Minha utopia desdenhou de mim. Riu de minha ingenuidade em acreditar ser um dia capaz de alcançá-la. Ao lhe perguntar sobre a possibilidade de um breve encontro, respondeu-me em tom sarcástico: quem sabe qualquer hora dessas numa rua qualquer... Na verdade, pra ser sincero, acredito ser minha utopia um blefe, tamanha a perfeição estética. Entretanto, do caráter e da ética desconfio, tão densa é a névoa que a rodeia. Por julgá-las decorrentes do medo de repentinamente materializar-se, eu sempre ignorei certas atitudes de minha utopia. Ela é cônscia de que, se assim ocorresse, perderia a magia e se transformaria num desses sonhos banais que a gente tem e se realizam cotidianamente. Ao tratar-me assim, com tal descaso e indiferença, a ingrata utopia abriu crateras imensas nos territórios sagrados que existem em mim; devastou florestas, violou valores, poluiu ares e sangrou os veios que saciavam a sede das terras que me compõem. Minha utopia tanto fez que despertou em mim o senso crítico e, em decorrência, esvaiu-se como se nunca d’antes tivesse se materializado em minha mente insana.
José Maria Alves Nunes Brasília-DF, primavera/2008 Escrito por Zé às 09h58
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(Re)composição Aos poucos vou me acostumando à sua ausência. As rotinas recobram seus lugares. Tudo retoma seu curso. O cinza dos dias, o frio, a neblina; antes densa, dissipa-se e novos tons aparecem. Na árdua tarefa de adaptar-me às novas circunstâncias desfiz-me de tudo que lembrava você; velhos retratos, discos, livros, cartas, curtos bilhetes..., enfim. Por vezes, ainda escuto tua voz nos meus ouvidos, em sussurros, tentando me persuadir. Mas, já não me iludo, sei que é o inconsciente tentando volver-me da decisão sensata de manter você fora de alcance. Agora, mais que antes, sei que a vida não é feita só de flores. Aliás, sou consciente de que bem pontiagudos são os espinhos. Todavia, é certeza também que nada é capaz de impedir meu mundo de recuperar as cores, os matizes. Sou perfeitamente capaz de gostar de outros sabores. Estou me tornando um mestre em tirar melhor proveito da solidão. Só para ter idéia, dia desses, explorando a nova companheira, descobri em mim paisagens até então desconhecidas. São desertos pelos quais agora caminho freqüentemente; mares imensos de águas azuis onde mergulho sem receio nos dias quentes de verão, e muitas montanhas; refúgios para costumeiras meditações, às quais tenho recorrido amiúde. Vejo que progredi na adaptação a esse meu novo ”modus vivendi” quando constato que recuperei a capacidade de perceber que em alguns dias o azul do céu fica mais intenso, n’outros o sol mais brilhante e que as estrelas, em algumas noites, parecem querer cair em gotas como chuva. Por fim, recuperei a capacidade de me apaixonar pelas pessoas e pelas coisas simples da vida. Meu pensamento já quase não te alcança. Escrito por Zé às 09h56
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