|
||
|
Desapropriação E quando dei por mim tu estavas fazendo aceiros e fincando estacas a demarcar espaços no meu coração. Chegou sem nenhum aviso. Ignorou completamente todas as placas de “É proibido”. Adentrou e se instalou. Classificando sentimentos, monopolizou o amor. Apossado. Editou leis estapafúrdias, decretos ditatoriais, portarias escravocratas e ordens de serviço de toda ordem. Com bravura, impôs limites, proibiu a caça, a pesca. Fixou placa de “propriedade particular”. Ocupou todos os pontos cardeais. Fez da área um grande latifúndio. Edificou casa, mil janelas, no lugar mais nobre. Escreveu endereço em placa de cobre e pendurou na cancela. Percebeu todos os mananciais que antes banhavam minhas entrâncias cordianas e que foram assoreados por falsos amores. Recuperou riachos, mansos regatos, cachoeiras, rios e mares. Fez reflorestamentos, exterminou erosões e trouxe de volta os passarinhos. Mestre em agronomia, fez uso de técnicas de hidroponia, irrigou trechos áridos e, assim, transformou ares e hectares. Nos vastos jardins, sem uso de agrotóxicos, exterminou ervas daninhas, cultivou amor agarradinho, amor-perfeito, bromélias, margaridas. E na quinta muitos pés de ata, só porque sabia ser minha fruta preferida. Eu de cá só observava você mudar as paisagens; vi abrir estradas vicinais que te levavam para os mais recônditos recantos; vi formar jardins coloridos e perfumados às margens de lagos de águas cristalinas, vi recuperar bosques... Nada fiz para impedir seus avanços. Hipnotizou-me o mar verde-azulado represado em teus olhos, mistura de céu e floresta. Não tive forças pra resistir à tua beleza, teu entusiasmo, enfim... Entreguei-me. Vamos ver no que dá. Escrito por Zé às 17h15
[]
[envie esta mensagem]
|
||