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Duas estações (José Maria Alves Nunes) O ano de 1965 foi especialmente ruim para os sertanejos. Os dias pareceram eternos e o sol ainda mais impiedoso. No céu de palidez azul nenhuma nuvem, rasgada que fosse. O sol jamais se negava; nascia e morria com precisão suiça. Os bichos sofriam famintos e sedentos. A parca água das cacimbas mal matava a sede das pessoas. No sítio de Justiniano, bravo sertanejo, a única esperança desmanchava na placa de madeira carcomida que indicava seu endereço: “Sítio Nova Esperança". Justiniano se considerava um camarada sem sorte. Sua mulher, a doce Josefina, não lhe rendera frutos. Árvore seca, era manina. Ele invejava os vizinhos. Aqueles, quando pouco, tinham prole composta de seis. Seu Laurentino tinha doze, sete varões. Mas a tristeza pela desventura achou um canto no coração daquele homem e lá se aquietou, resignou-se. Esporadicamente, essa tristeza achava de se espalhar. E então, era como fel de marrã que por descuido fora derramado na hora do trato. Nessas ocasiões, Justiniano ficava amargo, rude, isolava-se. Josefina, sempre atenta, percebia a nuvem negra no olhar do marido e se recolhia. No peito, o sentimento de culpa devorava o pouco da auto estima que ainda lhe restava. A frustração de Justiniano e Josefina só perdeu força quando adotaram o pequeno Jacinto. Esse, fruto de casal ainda mais desafortunado, veio parar no Sítio Nova Esperança com dois meses de sina cumprida. Os pais, desnutridos, foram atacados por males diversos e definharam até à morte. Jacinto tinha em 1965, onze anos. Pastoreava as criações e “tangia” os bichos do mato que desesperados queriam aproveitar da pouca comida de suas ovelhas; Enquanto Justiniano, em vão, lavourava na roça. Naquele ano, agosto transcorreu como de costume; longo, quente e triste. Isso obrigava Jacinto ir cada dia mais longe em busca de fonte onde dar de beber suas ovelhas. Durante a caminhada, as pisadas dos pés descalços do menino no mar de folhas secas, soavam como música aos seus ouvidos em meio à imensidão de garranchos. Um setembro insosso intensificou a palidez do céu e outubro chegou e partiu sem novidades. Novembro já se ia, nos finais, quando os relâmpagos, tímidos, rasgaram o céu da noite sertaneja. Àquela altura, Jacinto já não sabia mais onde levar seus bichos pra beber. Todas as fontes secaram. Na manhã de vinte e cinco saiu cedo, tocando as quatro ovelhas que lhe restavam do rebanho. Andou por várias horas sob o sol impiedoso, em vão. Nenhuma fonte, barrenta que fosse, encontrou. De repente, viu-se desorientado. Achou estranho o sol querer morrer no nascente. Andou a esmo. Só sentiu falta da cabaça d’água quando a sede lhe chegou insistente. Já ia longe, decidiu não voltar. A sede intensificava. Seus lábios ressequidos pareciam sangrar. Fechou os olhos, imaginou-se chupando limão; tamarindo - técnica que seu pai lhe ensinara e à qual sempre recorria - mas a saliva não veio. Finalmente, encontrou um leito de riacho. Resolveu seguir seu curso em busca de um poço. Deu alguns passos, porém, suas pernas finas não quiseram mais lhe obedecer, assim como as de “manchinha” , a ovelha mais velha que ficou pelo caminho, já sob a espreita dos urubus. Exausto, quedou-se recostado ao tronco de um velho ipê, às margens, e não viu a noite chegar com relâmpagos e trovões cada vez mais intensos. No Sitio Nova Esperança o por do sol trouxe desespero cada vez maior à medida que a noite chegava indiferente. Justiniano saiu à procura do filho. Gritou por muito tempo o mais alto que pode, até que lhe faltou a voz. Os primeiros pingos de chuva caíram quando ele não conseguiu mais conter as lágrimas e elas desceram aos borbotões, quentes, queimando-lhe o rosto. Cambaleante ele prosseguiu. A chuva forte que caiu nas cabeceiras desencadeou uma enchente jamais vista por aquelas bandas. Arrastou sem piedade tudo que encontrou pela frente. As águas pegaram Jacinto de surpresa, desfalecido, recostado ao tronco do ipê. Já amanhecia quando finalmente Justiniano encontrou o filho. O imenso vazio e a dor profunda que lhe assomaram ao ver o corpo minúsculo que jazia recostado, somente foi amenizado pela serenidade do rosto e pelo suave sorriso nos lábios de Jacinto. Ao certo, não se sabe se o menino morreu de sede ou afogado. Fato é que não conheceu a beleza da primavera e a fartura do outono. No sertão só existem duas estações. Escrito por Zé às 06h45
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