Escrito por Zé às 07h14
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Gralhas domingueiras
(José Maria Alves Nunes)
Hoje é domingo e o céu está claro; um fundo azul celeste mais distante destaca nuvens alvas. Tão alvas quanto as anáguas das velhas senhoras nordestinas.
Eu já estive lá fora mais cedo, fiz a inspeção que sempre faço nos finais de semana, assim que fui acordado madrugadinha por umas gralhas mal educadas que faziam muito barulho próximo à janela do meu quarto, enquanto comiam um resto de mamão ainda no pé, que ontem já servira de banquete a vários pássaros que almoçaram em meu quintal.
Gralha, pra mim, é um cancão sertanejo metido a besta. Certamente imigrante do nordeste cá pras brandas do cerrado, que ao chegar por aqui parece ter renegado suas origens. Pra você ter uma idéia, além de ter ficado graúdo, bem nutrido pelas frutas desta terra, mudou a letra e o tom do cantar; agora é mais grave, estridente, e não repete seu nome “cancão, cancão”. É um som esganiçado, sem graça, horrível.
Não estou querendo desfazer da beleza da penugem preto azulada que cobrem sua cabeça e asas, e nem do branco de seu abdome, muito menos de sua imponência e altivez, mas eu sou muito mais o cancão magro do sertão cantando e voando de galho em galho, acuando cobra. Apesar daquele ser lombriguento, a ponto de não servir para se comer assado com beiju de tapioca fresca - o que não quer dizer nada.
Fosse em outros tempos, o meu tempo de menino no nordeste, lançava mão de meu bodoque feito de pau pereira, ou das arapucas, e essas gralhas gordas iam ver uma coisa. Deu-me até água na boca de pensar no espeto fumegando sobre as brasas.
Durante a inspeção que fiz, fiquei de queixo-caído quando dei por conta do quanto as rolinhas daqui são diferentes das de lá do sertão. O que vocês me dizem de uma rolinha que, por preguiça de trabalhar, se põe a botar ovos num ninho velho, todo cagado nas beiras, que já serviu de berço, há bem pouco tempo a uns remelentos “fogo-pagozinhos”, hem? Pois é. É isso mesmo! Tem uma chocando no ninho antigo que fizeram num galho do pé de “bouganville” lá do fundo do quintal. Acredite se quiser, eu também não quis acreditar quando vi a cena.
Agora a joaninha, não! Dessa não falo mal. A joaninha é diferente. João de barro sempre faz casa nova. Dia desses ao sair para o trabalho eu o vi pegando matéria prima no meu quintal e construindo no pé de sucupira preta da casa vizinha. Hoje não a vi. Não trabalha aos domingos nem nos dias santos de guarda. Deve estar apenas inspecionando a obra. Eu vi foi duas garrinchas com inseto nos bicos levando pros filhotes bicudos que estão famintos no ninho que fizeram lá no terraço.
Pois é, a conversa está boa, mas já é bem meio dia, “né Maria José?” Tenho que ir até a cozinha.
Escrito por Zé às 07h10
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Rio
Eu rio
rio largo
denso
rio
tão intenso
que às vezes,
até penso
ser um oceano
Mas sou rio
preciso desaguar
Anda!
Urge que apontes
o meu curso
ou derramarei as águas
n’outro mar
Escrito por Zé às 07h02
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