JMpoesias


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Com breve aceno,

assim, quase com descaso,

como se nosso caso fosse obra do acaso,

fizeste de tudo pretérito.

 

Agora o que fazer dessa saudade,

desse cálice transbordado de angústia,

da solidão do quarto vazio,

do cio?

 

Que fazer desses versos toscos

de tão ingênuos, imbecis

Onde desaguar as águas amargas

desse rio?

 

Que destino dar aos teus CDs de blues,

aos cactos, trapos, perfumes intactos,

e à fotografia enquadrada

sempre à meia luz?



 Escrito por Zé às 18h58 [] [envie esta mensagem]






Quadro

O nosso amor está emoldurado

e pendurado à parede

natureza morta

um quadro de medidas exatas



 Escrito por Zé às 21h18 [] [envie esta mensagem]






Fascínio

Aonde quer que eu vá o brilho de certos olhos verde-azulados me alcança e exerce sobre mim o seu fascínio. Por mais que eu tente escapar, todas as rotas de fuga, todos os atalhos, me conduzem ao seu encontro.

Diante de tal poder, comparo-me a um rio largo e denso que habilmente contorna as montanhas, percorre caminhos tortuosos, desenha paisagens, arrasta o que encontra à frente, mas não resiste aos apelos do mar e acaba sempre absorvido pela imensidão azul que lhe rouba a identidade.

Contra o magnetismo do brilho desses olhos tento erguer trincheiras, muros altos, barricadas e barreiras. Entretanto, tudo isso sucumbe ante o seu poderio. É impossível lutar contra os arsenais de seus exércitos. E assim, eles abrangem mais e mais espaço. Ditam políticas, definem novos limites geográficos, mudam as fronteiras, levantam novas bandeiras, indiferentes às minhas vontades.

Sem forças pra reagir, entrego-me inteiro e me divirto nos intensos momentos de festa. No auge do calor que me provoca o brilho desses olhos, faço planos, me transformo em imensos oceanos, ondas gigantescas, ressacas, e provoco o doce embalo dos navios...

Depois, do que me resta, procuro novas rotas, atalhos, saídas. Fujo.



 Escrito por Zé às 12h32 [] [envie esta mensagem]






Enquanto te espero

O sol desce célere e o arrebol avermelhado anuncia uma noite fria. No bar à beira mar em que me encontro começam a chegar algumas pessoas. Parecem vindas diretamente do trabalho para um “happy Hour” com os amigos, pois, juntam-se em grupos. As conversas descontraídas e as risadas invadem todos os cantos, mas a mim não incomodam, ensimesmado, envolvido em meu mundo, não tenho ouvidos.

 Peço mais uma água tônica, a terceira. Nessas horas até bate um arrependimento por ter largado o cigarro; com certeza um trago agora me acalmaria os nervos, me faria relaxar.

 Uma gaivota pia, e o menino recolhe a pipa amarela que bailava no contraste azul do céu sem nuvens, a noite cai.

 Diante da proximidade do horário marcado para nosso encontro aumenta minha ansiedade. Um frio catarinense percorre minha barriga, minhas mãos inquietas suam. Meu nervosismo é evidente. Sinto-me um tanto ridículo por me comportar assim. Esboço um sorriso. Meneio a cabeça negativamente. Onde já se viu?

Certamente, quando chegares, saberei me comportar diante de ti. Nenhuma atitude infantil, palavra descabida ou acesso de timidez irromperá; afinal, não sou mais nenhum adolescente; infelizmente. Então porque essa inquietação?

Direi o que penso e desejo com clareza, nenhum temor embargará minha voz. As palavras fluirão naturalmente. Minhas mãos, tranqüilas, não me parecerão objetos estranhos, desgarrados de meu corpo. Saberei exatamente onde repousá-las.

Meus gestos e sorrisos serão comedidos, para que não te assustes. Nenhum sorriso amarelo nem palavras que te façam corar. Encontrará em meu olhar a confiança de quem sabe o que quer.

Não deixarei “i” sem pingo. Pronunciarei todas as sílabas como se as soletrasse. Serei claro ao falar de meus sentimentos. Não deixarei nenhuma dúvida sobre meus propósitos e não me afobarei ao ponto de tornar-me um tagarela. Abrirei parênteses, aspas, e deixarei algumas reticências para que mais te reveles.

Na imensidão verde-azulada do mar de teus olhos mapearei os pontos navegáveis. Só lançarei âncoras em portos seguros, onde depois me banharei sem maiores pudores.

Assim será. Claro! Não sou mais nenhuma criança.

Enquanto espero, leio as horas a cada segundo como se fosse um jovem adolescente lançando-se às primeiras aventuras. O garçom parece perceber minha aflição. Acho que vou pedir uma bebida quente. Qualquer uma que me acalme esses batimentos cardíacos, entretanto, que não contenha nenhum composto afrodisíaco. Preciso me acalmar.

Depois do primeiro trago, impaciente, chego a duvidar que você venha. Porém, ao levantar minha cabeça mais uma vez depois de ler as horas, vejo que te aproximas. Meu coração parece querer sair pela boca. Seus olhos verde-azulados, cristalinos, me fitam. E agora, que fazer dessas mãos enormes?



 Escrito por Zé às 22h30 [] [envie esta mensagem]






Mágoas

Do sal de tua lágrima me alimento

por isso te magôo, atordôo

causo sofrimento.

Induzo-te à dor

a todo instante

abro feridas em tua alma

porque ver-te em suplícios me acalma



 Escrito por Zé às 21h48 [] [envie esta mensagem]






Até o fim

 

Dar de mim o sal

diluído

em gotas ínfimas

cristalinas

até cair ao solo

o meu corpo

inerte

a matéria prima

e alimentar os vermes

famintos

cumprir sua sina



 Escrito por Zé às 19h54 [] [envie esta mensagem]






 

Presença

Chegaste como a chuva no sertão
saciando sede,
germinando sementes,
mudando paisagens.
Depois de ti não mais a aridez,
folhas secas,
e o cinza no horizonte.
Inundadas as entrâncias
umedecidas as planícies.
Há indícios de primavera

Foto: azaléia - JM

 




 Escrito por Zé às 19h11 [] [envie esta mensagem]







Mergulhos

A sua ausência perdurou além de minha fé
foi inútil declarar guerra à solidão e à desesperança;
entreguei-me.
Assim, da janela, vi o tempo em conluio com o vento mudar as paisagens
e transformar suas imagens em vagas lembranças.
Antes, porém, no afã de manter acesa a chama,
bradei aos quatro cantos,
clamei sua presença, até perder a voz
mas, vi sumir na poeira da estrada a menina de tranças,
resoluta, sem olhar pra trás.

Então busquei pro meu viver outros motivos
estanquei as lágrimas,
semeei novas sementes,
busquei outros caminhos,
flores se abriram.
Uma boca revelou-me outros sorrisos
e a névoa no horizonte aos poucos foi se dissipando.
O sol mostrou pra mim o mar em outros olhos
no qual eu mergulhei de corpo inteiro
como se fossem as águas de abrolhos

Foto: Flor amor perfeito - JM



 Escrito por Zé às 12h26 [] [envie esta mensagem]






Enganos

Nos jardins de minha infância

a flor mais bela

brotava de certa janela.

Espreitava-me à passagem

depois se recolhia

triste

orvalhada

julgando-se por mim ignorada

 

Foto: Santa Rita de Cássia - BA / JM

 



 Escrito por Zé às 21h32 [] [envie esta mensagem]






05/07/2007 - 21h42m

     

06 de Julho, uma data especial, nosso amigo poeta completa mais uma primavera.  Zé, minha singela homenagem:

 A não fácil simplicidade  

 Para Jose Maria Alves Nunes  

Tua poesia encanta

Pois cantas em palavras

A transparência e a beleza

Da tua alma sertaneja



 Escrito por Zé às 21h24 [] [envie esta mensagem]






Revés

 

Agora que você se foi

resta essa amargura entranhada no peito

a solidão desse quarto vazio, o frio

a tristeza invencível e minha vida sem eixo



 Escrito por Zé às 08h33 [] [envie esta mensagem]






Escrever

Escrever versos é montar colares de contas: por vezes, coloridas; desbotatas n'outras tantas.

 Escrito por Zé às 21h46 [] [envie esta mensagem]






Rio

Eu rio
rio largo
denso
rio
tão intenso
que às vezes
até penso
ser um oceano
Mas sou rio
preciso desaguar
urge que apontes
o meu curso
ou derramarei as águas
n’outro mar



 Escrito por Zé às 12h57 [] [envie esta mensagem]






Confissão

Se queres saber

sem ti perdi meu norte

a sorte

a luz

espinhos feriram minh’alma

e agora essa dor

esse odor

esse pus.



 Escrito por Zé às 09h01 [] [envie esta mensagem]






Vexames

Chegaste assim sem aviso

tirando-me o chão

obrigando-me um comportamento de improviso

a ponto de não saber dizer

se tudo isso é inferno ou paraíso.

Não disseste, palavra!

entretanto, em minhas alucinações,

vi em seu olhar mil interrogações.

Sem freios e sem receios

ofereci respostas até então para mim desconhecidas

fiz exclamações inteiramente descabidas

e proferi uma lista infinita de supostas verdades.

Enfim, desnudei minh’alma,

mostrei-me sem mistérios

E no auge da febre em que eu ardia

vi você pontuar várias reticências

e à sua revelia completei todas as frases

com  mil e uma indecências

 



 Escrito por Zé às 10h21 [] [envie esta mensagem]




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