JMpoesias


Razão

 

Desvende em mim os mistérios

os cemitérios de amores mortos

Natimortos

Assassinados pela mente

Inapelavelmente

a sangue frio

 



 Escrito por Zé às 20h20 [] [envie esta mensagem]






Resquícios de memória

Dos tempos idos, Bernardo guardava na lembrança as tardes fagueiras em que, no calor do sertão, espreitava Madalena nua, à beira da lagoa, a se banhar.

Aproximava-se devagarzinho, pé ante pé, ocultado pelas folhas de buritis, junco e arbustos que margeavam a lagoa – maldizia a seca que deixava tudo mais despido que o corpo de Madalena - e ficava ali, em ponto estratégico; o coração aos pulos, os desejos à flor da pele, e os olhos vidrados, até o dia em que no auge do êxtase percebeu alguém a lhe cutucar as costas. Olhou desconcertado.

 - Vô, o jantar está na mesa!

 - Bernardo, assustou-se. Volveu a cabeça e deparou com o lindo sorriso da neta Josephine. Levantou-se da velha poltrona, puxou o pano que lhe descortinava o mar de Copacabana, e dirigiu-se à sala de jantar.

 



 Escrito por Zé às 13h19 [] [envie esta mensagem]






Lágrima

Hoje vi o mar

nos olhos de Teresa

e nele toda tristeza do universo

fruto de um desenlace

corria por tua face

um rio em caminho inverso



 Escrito por Zé às 13h23 [] [envie esta mensagem]






Sob ação do tempo

Eu já senti mais saudade de você.
Houve um tempo, por exemplo, que tudo me trazia você à lembrança.
Não sei. Mas, talvez eu esteja esquecendo o brilho de teus olhos verdes...
Azuis?
Castanhos. Acho que são castanhos.

Então...
nem o mar, outrora seu retrato fiel, nem a lua me trazem mais você à memória.
E pra falar a verdade, eu confesso: às vezes me esqueço de alguns detalhes de nossa estória.

É. Eu já senti mais saudade de você.
Nos dias frios de inverno, creia! sua ausência era um inferno.
Hoje, se o dia está frio
acendo a lareira.



 Escrito por Zé às 20h48 [] [envie esta mensagem]






Aridez

(José Maria Alves Nunes/Joseval Coelho)

 

Dos  olhos as lágrimas

à força enclausuradas

insistem em se libertar
Queimar a face
lavar a alma

e arrefecer a sede do corpo

em vão

a aridez  é permanente.

 



 Escrito por Zé às 13h38 [] [envie esta mensagem]






Mudança de vento

 

Já não me alcançam teus olhos

nem lembro mais a cor que eles tem

 

Um vento norte

desatou nossos laços

levou teu  cheiro, o encanto

levou também o meu pranto

 

Eu barco a vela ancorei-me

a esperar vento sul

que não tardou a chegar



 Escrito por Zé às 20h06 [] [envie esta mensagem]






Duas estações

O ano de 1965 foi especialmente ruim para os sertanejos. Os dias pareceram eternos e o sol ainda mais impiedoso. No céu de palidez azul nenhuma nuvem, rasgada que fosse. O sol jamais se negava; nascia e morria com precisão suíça.

Os bichos sofriam famintos e sedentos. A parca água das cacimbas mal matava a sede das pessoas. No sítio de Justiniano, bravo sertanejo, a única esperança desmanchava na placa de madeira carcomida que indicava seu endereço: “Sítio Nova Esperança".

Justiniano se considerava um camarada sem sorte. Sua mulher, a doce Josefina, não lhe rendera frutos. Árvore seca, era manina. Ele invejava os vizinhos. Aqueles, quando pouco, tinham prole composta de seis. Seu Laurentino tinha doze, sete varões.

Mas a tristeza pela desventura achou um canto no coração daquele homem e lá se aquietou, resignou-se. Esporadicamente, essa tristeza achava de se espalhar. E então, era como fel de marrã que por descuido fora derramado na hora do trato.

Nessas ocasiões, Justiniano ficava amargo, rude, isolava-se. Josefina, sempre atenta, percebia a nuvem negra no olhar do marido e se recolhia. No peito, o sentimento de culpa devorava o pouco da auto estima que ainda lhe restava.

A frustração de Justiniano e Josefina só perdeu força quando adotaram o pequeno Jacinto. Esse, fruto de casal ainda mais desafortunado, veio parar no Sítio Nova Esperança com dois meses de sina cumprida. Os pais, desnutridos, foram atacados por males diversos e definharam até à morte.

Jacinto tinha em 1965, onze anos. Pastoreava as criações e “tangia” os bichos do mato que desesperados queriam aproveitar da pouca comida de suas ovelhas; Enquanto Justiniano, em vão, lavourava na roça.

Naquele ano, agosto transcorreu como de costume; longo, quente e triste. Isso obrigava Jacinto ir cada dia mais longe em busca de fonte onde dar de beber suas ovelhas. Durante a caminhada, as pisadas dos pés descalços do menino no mar de folhas secas, soavam como música aos seus ouvidos em meio à imensidão de garranchos.

Um setembro insosso intensificou a palidez do céu e outubro chegou e partiu sem novidades. Novembro já se ia, nos finais, quando os relâmpagos, tímidos, rasgaram o céu da noite sertaneja. Àquela altura, Jacinto já não sabia mais onde levar seus bichos pra beber. Todas as fontes secaram.

Na manhã de vinte e cinco saiu cedo, tocando as quatro ovelhas que lhe restavam do rebanho. Andou por várias horas sob o sol impiedoso, em vão. Nenhuma fonte, barrenta que fosse, encontrou.

De repente, viu-se desorientado. Achou estranho o sol querer morrer no nascente. Andou a esmo. Só sentiu falta da cabaça d’água quando a sede lhe chegou insistente. Já ia longe, decidiu não voltar. A sede intensificava. Seus lábios ressequidos pareciam sangrar. Fechou os olhos, imaginou-se chupando limão; tamarindo - técnica que seu pai lhe ensinara e à qual sempre recorria - mas a saliva não veio.

Finalmente, encontrou um leito de riacho. Resolveu seguir seu curso em busca de um poço. Deu alguns passos, porém, suas pernas finas não quiseram mais lhe obedecer, assim como as de “manchinha” , a ovelha mais velha que ficou pelo caminho, já sob a espreita dos urubus. Exausto, quedou-se recostado ao tronco de um velho ipê, às margens, e não viu a noite chegar com relâmpagos e trovões cada vez mais intensos.

No Sitio Nova Esperança o por do sol trouxe desespero cada vez maior à medida que a noite chegava indiferente. Justiniano saiu à procura do filho. Gritou por muito tempo o mais alto que pode, até que lhe faltou a voz. Os primeiros pingos de chuva caíram quando ele não conseguiu mais conter as lágrimas e elas desceram aos borbotões, quentes, queimando-lhe o rosto. Cambaleante ele prosseguiu.

A chuva forte que caiu nas cabeceiras desencadeou uma enchente jamais vista por aquelas bandas. Arrastou sem piedade tudo que encontrou pela frente. As águas pegaram Jacinto de surpresa, desfalecido, recostado ao tronco do ipê.

Já amanhecia quando finalmente Justiniano encontrou o filho. O imenso vazio e a dor profunda que lhe assomaram ao ver o corpo minúsculo que jazia recostado, somente foi amenizado pela serenidade do rosto e pelo suave sorriso nos lábios de Jacinto.

Ao certo, não se sabe se o menino morreu de sede ou afogado. Fato é que não conheceu a beleza da primavera e a fartura do outono. No sertão só existem duas estações.




 Escrito por Zé às 23h38 [] [envie esta mensagem]






 

Memórias e cores

Ingrata esta batalha que enfrento contra o tempo para manter vivas na memória todas as lembranças, pois ele tenta a todo custo apagá-las de maneira vil, fria, cruel.

Na guerra, ele usa arsenais modernos e seu aspecto é sempre o mesmo; jovial, viçoso e fagueiro. Não impõe a si próprio sua ação. Mantém sua força. Enquanto eu fui transformado nesse espectro de gente que nem de longe lembra o menino ágil e sagaz de outrora.

Ainda assim, em todas as manhãs repinto os quadros guardados na memória. Avivo bem suas cores - de cinza as tristezas, de vermelho os amores. O azul uso para as lembranças mais doces: a liberdade do menino jogando bola, mergulhando no rio, o papagaio no ar, o vôo no trapézio, os bons livros... Há também a presença constante do verde e do lilás, que simbolizaram a esperança e a força que carreguei durante toda a caminhada até aqui.

Os tons pretos e acinzentados também estão presentes nas paisagens. Trazem certa melancolia. Ainda assim não os descarto. São necessários, pois me apontam os caminhos que devo evitar.

A maioria dos quadros tem como motivo uma velha casa de taipa erguida em meio à caatinga, coberta por um céu de azul intenso, quase anil, e parcas nuvens brancas durante o dia e, à noite, por um breu impressionante que realça o brilho das estrelas nos períodos em que elas não coadjuvam a lua cheia.

Existem também pendurados à parede da memória quadros cujos motivos são aglomerados urbanos; arranha-céus, velhos casarões, trilhos, veículos, e muitas antenas de televisão. O céu é coberto de cinza e não permite aparecer a luz do luar. Um olhar mais atento perceberá que o vermelho predomina nessas paisagens. Em contrapartida os tons são mais desgastados. Trata-se de quadros de restauração mais penosa e sendo assim, conseqüentemente, mais cansativas. Mas de igual importância de preservação.

Mesmo cônscio da superioridade do tempo, e de estar certo que ele se sobrepõe a todas as coisas; apesar do trabalho árduo na restauração dos quadros já existentes, ainda me restam forças para a pintura de novos quadros. Muitos deles, ainda em tons vermelhos. Não me furto a pintá-los, apesar de sabê-los de difícil restauração. E assim vou misturando cores na tentativa de descobrir outros sabores em meio ao turbilhão de acontecimentos de que se faz a vida.

Brasília - DF, verão 2009



 Escrito por Zé às 23h26 [] [envie esta mensagem]






 

Definhamento

 

Receio meu amor tenha morrido estrangulado pelos teus ciúmes

pois já não sinto os sintomas que denunciavam sua presença;

aquela aceleração no peito

o tremor de não ter jeito

aquele fogo alto,  labaredas...

Agora não mais aquela necessidade de te ver, urgente

nem a estranha sensação de estar só em meio a tanta gente, como antes

Que dirá aquele alvoroço que tomava meu corpo

quando me envolvia num abraço e teus lábios roçavam meu pescoço...

 

É quase certo que o meu amor morreu de tristeza, velho e cansado

por ver seus olhos sempre transtornados

a vigiar os meus.

Tomara meu amor tenha apenas dado um tempo

mas acho pouco provável

difícil um sentimento resistir à amargura

e manter-se vivo em clausura.

 

O brilho, antes intenso de meus olhos,

aquele brilho evidente no olhar de quem ama,

não vejo mais, nem resquícios do fogo

só percebo as cinzas, nenhuma chama.

o meu amor morreu



 Escrito por Zé às 11h14 [] [envie esta mensagem]






 

Certeza

 

Feliz é o vento

que impunemente rouba da rosa o perfume

e em segundos leva até você

E pra me provocar, ainda fustiga teus cabelos.

 



 Escrito por Zé às 11h13 [] [envie esta mensagem]






 

Caminhos

 Não haverá atalhos que te facilitem a caminhada. Tampouco paisagens sedutoras que lhe anestesiem os olhos. Para chegar ao meu coração será preciso vencer muitos obstáculos; trechos íngremes, desertos imensos, intempéries...

Só os persistentes, aqueles que não temem as tempestades e não se afogam nas primeiras águas terão a ventura de banhar nos mansos regatos e descansar à sombra das árvores que me habitam.

Não mais atrairei ninguém espalhando areias coloridas no caminho. Agora, deixarei transparecer as pedras pontiagudas, os espinhos. No trajeto nenhum manso regato, água limpa de riacho, olho d'água pra matar a sede.

 Dessa forma, de sorte quem alcançar meu coração saberá dar o valor que lhe é devido.

Espero que assim, quem aventurar por tal caminho, aprenda a fechar os olhos para melhor sentir o doce aroma que emana das flores dos imensos jardins que trago em mim.



 Escrito por Zé às 22h44 [] [envie esta mensagem]






  

O que me traz o tempo

 Hoje, não mais me iludem as ondas desse mar verde-azulado.

Precavido, prefiro a segurança de contemplá-las à distância

pois bem sei da sedução e da magia que exercem sobre mim.

Assim, contento-me em sabê-las ali no constante vai e vem lambendo os pés de outros pobres seres distraídos que ainda não se sabem seus cativos.

Entretanto, eu, não mais me deixo arrastar pelas marés como outrora, qual folha desgarrada da árvore lançada à sorte pelo vento.

Já não me envolve como antes o barulho de tuas águas quando zombeteiras lançam-se no rochedo, nem me preocupa a força de tuas ressacas.

Confesso! nem mesmo sinto aquele desejo insano de beber todo teu azul na esperança vã de matar minha sede.

Não me incomodam mais os pescadores a lançar sobre ti as redes

tampouco me hipnotizam os raios de sol no entardecer quando devagar adentram tuas águas e se entregam lânguidos aos teus braços.

Agora nem o clarão da lua cheia que te enche de mistérios me faz perder o prumo.

Bem ancorado em tuas praias, não mais serei barco à deriva a mercê de teu fascínio me apontando o rumo até que no horizonte infindo eu desapareça.

Mas cuido carinhosamente de teu leito para que possas descansar em paz nos braços de quem te mereça.

 

 



 Escrito por Zé às 20h09 [] [envie esta mensagem]






Paisagem em branco e preto

 

Inversos e controversos

meus versos choram

nascem  tristes, acinzentados.

Constataram que a matriz das cores

que prateava a lua, dourava o sol

matizava as flores

e emprestava tons ao céu de abrolhos

era o mar verde azulado de seus olhos

 



 Escrito por Zé às 16h31 [] [envie esta mensagem]






Decreto-Lei

 

Este decreto-lei baixa regras que tem como objetivo principal à proteção de um coração

já bastante experimentado e cansado de desilusões.

 

Depois de sofrer vários assaltos, grande parte deles à mão-armada, resultando sérias lesões, cujas conseqüências são profundas seqüelas que comprometem seu perfeito funcionamento;

Cansado de sofrer com os remédios amargos para a cura das feridas que deixam as mais profundas cicatrizes por toda sua extensão;

A fim de evitar perdas irreversíveis de auto-estima e amor-próprio, cuja falta resulta em autocomiseração;

 

resolvo:

 

1  -  A partir desta data fica interditado para reforma o  meu coração.

2  -  As obras consistem em todas aquelas necessárias à sua blindagem.

3 - Desde já ficam autorizadas as aquisições de todo material necessário à operação sem a necessidade de licitação, haja vista a urgência urgentíssima com que as obras devem ser iniciadas.

4 - Durante o período da obra fica terminantemente proibida a entrada de qualquer pessoa a despeito de quaisquer alegações.

4.1 –  Obrigatoriamente, deverá ser colocada à entrada do canteiro de obras uma placa indicativa da interdição, a fim de garantir a segurança. Mas, o aviso deverá ter algumas ressalvas, tais como:

– Aos que vem pela primeira vez: “Fechado para reformas, sem prazo de reabertura, volte depois”

– Aos demais visitantes: “Demolido para a construção do presídio municipal. Cuidado: você pode ser confundido com indivíduos da pior espécie; saia voando”

 

5 – Deverá obrigatoriamente ser empregado na obra o seguinte material:

5.1 – Infinitas toneladas de insensibilidade

5.2 – Incontáveis caminhões de indiferença

5.3 – Infinitas pás de desconfiança

 

6 – Os materiais necessários à obra serão comprados diretamente na mão daqueles que deram causa a reforma pois são fontes inesgotáveis de tais matérias primas .

 

7 – Este Decreto-Lei entra em vigor a partir de agora

 

8 - Cumpra-se

 

Capital Federal do Brasil, outubro de 2008



 Escrito por Zé às 16h04 [] [envie esta mensagem]






Inconstância

 

No curso da vida

às vezes sou rio;

corro célere pro mar

N’outras tantas

sou poço estagnado

Indeciso;

manso lagamar



 Escrito por Zé às 15h01 [] [envie esta mensagem]




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